D. Afonso Henriques |
A
história do Estado Português começa com a assumpção do
título de Rei por D. Afonso Henriques, conde de Portucale,
em 1143. Esta ruptura política com o Reino de Leão é
provocada por uma aliança entre os grandes senhores a sul do
Rio Minho, com o apoio de algumas ordens religiosas e
militares. Os seus grandes centros são Braga (a mais antiga
capital dos reinos pós-romanos e que disputava a primazia
cristã das Espanhas com Santiago de Compostela), o Porto e
Coimbra.
As
primeiras escolhas que se colocam ao reino são entre a
expansão para Norte (a Galiza, com quem o irmana a cultura e
a religião), e para Sul (com quem também o irmana a cultura,
mas, na época, dominado pelos muçulmanos). A escolha, ditada
pela força de Leão, acaba por ser o Sul, conquistando o
primeiro Rei quase todo o Alentejo.
A
expansão para Sul, com avanços e recuos geográficos,
alianças e guerras com os Estados muçulmanos do Alentejo e
Algarve, continuará a ser uma constante até meados do século
XIII. As fronteiras actuais de Portugal Continental datam
dessa época, sendo as mais antigas da Europa.
Os
conflitos com Leão (impedindo as tentativas de expansão para
Leste) e com Castela (quando este Reino absorveu o de Leão)
prosseguiram, interferindo os três (e depois dois) Estados
nas políticas internas uns dos outros.
Ao mesmo
tempo criam-se alianças (através de casamentos reais) com os
outros Estados peninsulares (que não Leão) e com países da
Europa do Norte e reforça-se o poder da monarquia através da
aliança com os burgueses dos concelhos, evitando assim a
feudalização do País. O rei passa a governar com as cortes,
onde estão representados os Três Estados (Clero, Nobreza e
Povo).
A
conquista dos territórios do Sul faz-se através da
integração das populações de religião Islâmica e Judaica (para
além das populações cristãs que se mantinham sob domínio
muçulmano).
Ao mesmo
tempo, Portugal desenvolve-se economicamente, estabelecendo
relações comerciais (exportando produtos mediterrânicos e
marítimos) com a Europa do Norte e com o Magrebe.
No
século XIV começam a brilhar as primeiras luzes da Idade de
Ouro de Portugal. A sua língua separa-se do
galaico-português, a sua corte ganha brilho intelectual de
dimensão europeia, funda-se a universidade.
Portugal
continua a interferir militar e politicamente nos assuntos
da Península, sustentando guerras com o seu vizinho
castelhano, mas lutando também, em casos específicos, ao seu
lado contra o inimigo religioso comum (o Califado de Córdova
e, posteriormente, o Reino de Granada).
A afirmação marítima do País, que já tinha tradição de navegação anterior à fundação do Estado, inicia-se então, com as primeiras viagens marítimas às Canárias, datando dessa época a rivalidade comercial entre Lisboa e Sevilha.
O
episódio de Inês de Castro, que foi cantado por toda a
Europa durante o século seguinte ocorreu em meados do século
XIV.
No final
do século, Portugal foi afectado pela crise social que
percorreu toda a Europa, conjugada com uma crise política
interna relacionada com a que ocorria em Castela e na qual
Portugal interferiu fortemente, tal como Castela na
portuguesa.
A crise
terminou com a vitória de um novo rei, com o reforço dos
poderes dos concelhos e a aliança entre Portugal e a
Inglaterra (a mais antiga aliança estável da Europa),
através da qual ambos os países reforçaram os seus laços
comerciais e políticos e se prestaram mutuamente apoio
militar (os ingleses enviando corpos de arqueiros e os
portugueses enviando navios).
No
século XV, resolvida a crise e estabilizado o País, Portugal
lança-se na expansão para Sul e para Oeste através do oceano.
É descoberto oficialmente o arquipélago da Madeira e, depois,
o dos Açores, a um terço do caminho entre a Europa e a (futura)
América. São conquistadas cidades no actual Marrocos.
Ao longo
de todo o século a expansão marítima continua e ganha uma
importância económica, política, intelectual e espiritual
cada vez maior.
As
viagens sistemáticas pela orla do continente africano (mas
obrigando a viagens em mar alto no regresso, devido ao
regime de ventos) descobrem para a Europa um novo mundo,
apenas conhecido pelas memórias dos romanos (havia mil anos
atrás) e pelos contactos com os povos do Norte de África.
Portugal
estabelece feitorias comerciais e relações políticas com os
Estados que encontra, mantendo com as zonas onde estes não
existem contactos mais esporádicos. O Continente passa então
a funcionar como grande placa giratória do comércio
internacional entre a África e a Europa.
Navegadores portugueses exploram sistematicamente toda a
costa atlântica de África e também a sua costa índica,
alcançando a almejada Índia por mar antes do dobrar do
século.
Ao
mesmo tempo, lançam-se em arrojadas, mas bem planeadas,
expedições de exploração do Atlântico Norte e Sul,
descobrindo provavelmente várias zonas da América do Norte e
do Sul. Na
Europa, pela acção de Portugal, abrem-se novos campos a
vários tipos de conhecimento. No
início do Século XVI, Portugal domina os oceanos Atlântico e
Índico, alcançando também o Pacífico Norte. As frotas
portuguesas impõem a lei no Índico, disputando a primazia,
primeiro, e vencendo, depois, as frotas turcas.
Lisboa torna-se então o maior empório comercial do mundo, e
o modo de vida de Portugal baseia-se no comércio pela
primeira vez global.
Apesar do seu poder naval, Portugal não tem força suficiente
para sequer pensar em aventurar-se no domínio da América do
Norte, limitando-se a expandir-se pelo Brasil (conhecido
desde o século anterior, mas só descoberto oficialmente em
1500) de forma a proteger as suas rotas para o Índico. A
ciência produzida em Portugal dita então leis na Europa e é
através dos portugueses que esta conhece (para além da
fábula) a Etiópia, a Índia, a Indochina, a China, o Tibete,
as ilhas da futura Indonésia e o Japão.
Dois
factos vêm então marcar o começo da decadência deste império
(que, mesmo assim, durará de O
chefe de Estado português passa a ser Filipe II de Espanha e
Portugal vê-se envolvido nas guerras contra a Inglaterra e
os Países Baixos, naquela que foi, de facto, a primeira
guerra mundial, com operações militares na Oceânia, no
Índico, na América e na Europa.
Portugal perde então o domínio de imensos portos e rotas no
que viria a ser mais tarde a Indonésia e mares adjacentes
(algumas dessas comunidades mantêm ainda hoje traços claros
da presença portuguesa), mas consegue derrotar as pretensões
holandesas em África e na América do Sul. Em
1640, Portugal recupera a sua independência da coroa de
Espanha (numa revolta contra o que começara por ser apenas
uma união dinástica e acabara sendo uma ocupação
estrangeira), mantendo uma longa luta militar e diplomática
para a garantir e para limitar as perdas do seu império. No
início do século XVIII, o império marítimo do Índico, a
braços com a expansão holandesa e inglesa e com a falta de
poderio (desviado para a defesa do Continente e do
Atlântico), soçobra lentamente, iniciando-se então o ciclo
atlântico, centrado na expansão na América do Sul e na
criação do Brasil e nos arranjos com os ingleses,
adversários comerciais no resto do Mundo e aliados políticos
na Europa, de um modo de convivência no Atlântico.
Apesar de tudo, Portugal continua a ser uma das seis grandes
potências europeias e uma das quatro grandes potências
mundiais.
Portugal já não dita leis no campo intelectual, científico e
tecnológico, mas mantém-se a par da restante Europa. As
intervenções na Europa destinam-se exclusivamente a garantir
que a Espanha não adquira o poder suficiente para voltar a
realizar a sua ambição de dominar Portugal. Ao
contrário do que fizera precedentemente (no Índico, onde
dominou uma estratégia de domínio de portos comerciais e
militares importantes e a miscigenação racial), no Brasil,
em parte devido à escassez de população, Portugal empreendeu
uma política de emigração populacional e de ocupação
territorial sistemática. Ao
mesmo tempo, faz-se um esforço de desenvolvimento económico
e de reforma das estruturas administrativas, que encontra
alguma resistência política, que fará essas reformas
gorarem-se no último quartel do século. Contudo, na área do
conhecimento, Portugal continua, já não a produzir, mas a
importar o que de melhor se faz na Europa. O
esforço de desenvolvimento económico é limitado pela
dimensão do País e pelos acordos comerciais com a
Inglaterra, onde a revolução industrial já segue a pleno
vapor. Uma
nova guerra europeia, derivada da revolução francesa do
final do século XVIII, virá, simultaneamente, perturbar o
crescimento económico e provocar a reforma política.
Devido às guerras napoleónicas, Portugal passará, por alguns
anos, a ser o único Estado europeu a ter o seu Chefe de
Estado fora da Europa, o que contribuirá decisivamente para
a independência do Brasil, no primeiro quartel do século
XIX. Tendo
sido um dos primeiros Estados de regime absolutista, mesmo
«avant la lettre», Portugal só mudará para um regime
constitucional no segundo quartel do século. Este
atraso, conjugado com a destruição económica provocada pelas
guerras napoleónicas e a perda do Brasil, provocará um longo
período de instabilidade política e de decadência económica.
Apesar de possuir extensos territórios em África, Portugal
não dispõe de meios para os povoar e para defender
militarmente a sua presença, num contexto em que as grandes
potências (que Portugal já não é) se lançam numa política de
ocupação efectiva deste continente. Ao mesmo tempo,
Portugal, com excepção do Brasil, não tem uma visão de
ocupação territorial (que lhe será imposta pelas
circunstâncias em África), mas sim de estabelecimento de
entrepostos comerciais. Será,
no entanto, forçado, para não perder a única coisa que lhe
dá estatuto mundial, a proceder à colonização dos
territórios de Angola e Moçambique através da ocupação
militar.
O
sonho de um novo Brasil (desta vez em África e de costa a
costa, ligando Angola e Moçambique através de territórios
regularmente atravessados, mas nunca ocupados) é impedido
pelas ambições imperiais inglesas, criando o fermento para
uma nova mudança de regime político. O
crescimento económico continuou, mas de forma lenta, com
Portugal a atrasar-se em relação à Europa, devido à falta de
reformas nos campos relacionados com o conhecimento. No
início do século XX, Portugal muda de regime político
instaurando uma República.
Resultado da crise financeira que varreu a Europa após a I
Guerra Mundial e da instabilidade política, o regime
parlamentar (I República) foi derrubado em 1926 por uma
ditadura militar. Em
1933, este regime deu então origem ao Estado Novo, a
ditadura que governou Portugal até 1974.
Portugal procurou preservar a sua herança colonial
contrariando a tendência dos tempos, mantendo uma longa
guerra em três frentes que impediu o desenvolvimento
económico, intelectual e científico. O fim
da mais longa ditadura da história da Europa Ocidental
chegou em 25 de Abril de 1974, quando o Movimento das Forças
Armadas, reinstaurou o regime democrático. Um
ano depois, foi eleita, pela primeira vez por sufrágio
universal, uma assembleia constituinte, elaborada uma
constituição e, mais outro ano passado, eleita a Assembleia
da República (parlamento) e um governo constitucional. Após
alguns anos de instabilidade política, o regime, no começo
dos anos 80, evoluiu para a democracia plena em que hoje os
portugueses vivem. Com a democracia veio o desenvolvimento
económico, o florescimento cultural e científico e, cada vez
mais, a afirmação no campo das novas tecnologias.
Fechado o ciclo do império (com a descolonização em meados
da década de 70), Portugal aderiu à actual União Europeia,
mas sem deixar de procurar manter uma ligação estreita quer
aos outros sete países que falam português (o que levou à
criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), quer
às comunidades portuguesas e descendentes de portugueses
espalhadas por todo o mundo. No
presente, Portugal é um país constituído por três espaços
territoriais (as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira,
no Atlântico, e o Continente, na orla atlântica da Europa). É
hoje um país estável social e politicamente, economicamente
próspero, humanamente desenvolvido e que se afirma cada vez
mais pela sua atitude e capacidade de diálogo e de
entendimento da diferença e pela sua cultura e modo de vida,
resultado de séculos de estreita convivência com modos de
vida diferentes, a partir do momento em que, pela sua acção,
nasceu o mundo moderno.
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O Infante D. Henrique |
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Extracto do mapa Terra Brasilis (Atlas Miller, 1519) |





